"Para que criemos uma personalidade dedicada, concentrada e que faça tudo aquilo que lhe é exigido especificamente em alto nível (em nosso caso a prática esportiva), antes de mais nada é primordial que a espontaneidade, a satisfação e a alegria sejam as principais recompensas e, portanto os objetivos básicos de uma vivência sistemática e permanente do esporte para jovens"
Muito se diz sobre a orientação às crianças e jovens de um modo geral para ter sucesso em suas vidas. No esporte isso não é diferente. Alguns pais e profissionais ao se encantarem com o potencial atlético dos seus filhos/alunos ficam permanentemente em conflito a fim de encontrarem qual o melhor caminho para os mesmos obterem sucesso.
Em consequência, muitos jovens atletas deixam de usufruir uma das melhores experiências que o esporte oferece na vida das pessoas: a alegria. Isso ocorre fundamentalmente por que objetivos de sucesso e ascensão social são projetados por adultos como se fossem a razão prioritária da prática esportiva.
Ao considerarmos, em hipótese, um jovem de talento para praticar determinado esporte em alto nível e a ideia descrita acima é incorporada pelo mesmo desde cedo, haverá então uma grande possibilidade de ocorrer um paradoxo indesejável. Em síntese, desanimará facilmente, se aborrecerá antes de chegar ao alto nível e não terá o sucesso esperado. E caso se torne um atleta profissional viverá em constantes conflitos pessoais e o sucesso será relativo.
Para que criemos uma personalidade dedicada, concentrada e que faça tudo aquilo que lhe é exigido especificamente em alto nível (em nosso caso a prática esportiva), antes de mais nada é primordial que a espontaneidade, a satisfação e a alegria sejam as principais recompensas e, portanto os objetivos básicos de uma vivência sistemática e permanente do esporte para jovens.
Em pressuposto, ao assegurar tais objetivos com o passar do tempo, o esforço e a dedicação em tudo que é fundamental para a melhoria do desempenho (treinamentos principalmente) virão naturalmente.
Por outro lado se não fomentarmos a prática de esporte livre de projeções futuras enraizadas na recompensa social e material a criação da personalidade acima será muito difícil. Teremos, pelo contrário, um atleta que embora talentoso, será fraco psicologicamente, avesso aos treinamentos árduos e à disciplina exigente do alto nível. Além do mais não sentirá o prazer da recompensa advinda do sacrifício e da dedicação permanente simbolizada pelo trabalho.
O atleta que aprendeu em criança a se divertir e ter satisfação no que faz sem esperar recompensas como se fossem um direito adquirido são aqueles que permanecem por mais tempo em atividade e não por acaso acabam por obter mais sucesso.
No entanto, aquele que desde cedo vislumbrou sucesso e ascensão social (frequentemente uma motivação provocada por adultos), mesmo com talento, terá tudo para fracassar diante de seus desafios. E mesmo que eventualmente tenha sucesso, não conseguirá usufruir de maneira exemplar de sua carreira esportiva.
O atleta que convive naturalmente com a rotina rígida de treinamentos e os limites impostos na vida de um atleta de alto desempenho, é aquele que quando vislumbrou o esporte como uma profissão, dedicou boa parte do tempo da prática esportiva durante a infância com alegria e satisfação e que a melhor recompensa estava justamente na oportunidade da participação no esporte.
Para finalizar, sempre é bom lembrar que viver a alegria do esporte infantil já basta. Pretensões demasiadas para o futuro não faz parte de um roteiro de sucesso.
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