Otaviano Helene afirma que o exame não aumenta o acesso à universidade
O Enem (Exame Nacional do Ensino Médio) cria nos estudantes a ilusão de democratização do acesso ao ensino superior. A afirmação é do ex-presidente do Inep (instituto do Ministério da Educação responsável pelo Enem) Otaviano Augusto Helene, que assumiu o cargo em 2003, no início do governo Lula.
Ao transformar a prova em algo similar ao vestibular, há benefício para os alunos - eles podem disputar vaga em universidades públicas sem ter gastos com viagens e hospedagem. Entretanto, a vantagem é dada pela metade, afirma o professor.
- O benefício é apenas parcial, porque as universidades onde a concorrência é alta não usam o Enem totalmente. O candidato vai ter que continuar viajando para todos os lugares onde estão as instituições, para fazer o vestibular. O Enem simplifica, mas não de todo.
Instituições tradicionais como Unifesp (Universidade Federal de São Paulo), UFRJ (Universidade Federal do Rio de Janeiro) e UFBA (Universidade Federal da Bahia) não abrem todas as suas vagas pelo Enem. A Universidade Federal do Paraná, por exemplo, abre somente 10% das chances pelo exame. Os alunos acabam sendo levados a crer que conseguirão ingressar em cursos de alto nível, quando muitas vezes as carreiras são recém-criadas, pequenas ou de baixa procura, diz ele.
Para Helene, a forma como o Enem está sendo divulgado pelo governo federal dá interpretação errada à sua função, que deveria ser a de analisar o desempenho dos alunos de ensino médio. Uma análise similar é feita por Maria Helena Guimarães de Castro, também é ex-presidente do Inep. Para ela, a mudança do perfil da prova - que passou de avaliação do nível dos estudantes para um substituto de vestibulares a partir de 2009 - tornou o Enem vulnerável a erros e fraudes e uma prova cobiçada.
- A prova [do Enem] se tornou objeto de desejo muito valioso. É muito mais difícil se ter controle de todas as etapas do processo.
Para o ex-presidente do Inep, não importa a forma como os estudantes entram na universidade - se com o Enem ou com vestibulares tradicionais - mas sim que existam mais oportunidades de ingresso.
- A democratização [do acesso ao ensino superior] deve acontecer independente da forma da seleção. Quem se sai bem no Enem, se sai bem em vestibular comum, se sai bem em prova dissertativa, em prova de múltipla escolha.
Falhas no Enem
Os erros no Enem - distribuição de 21 mil cadernos com questões repetidas e páginas faltando, além de inversão do cabeçalho na folha de respostas no primeiro dia de aplicação da prova - foram "uma absoluta incompetência de uma gráfica e do órgão responsável que fez o exame”, afirma Helene.
O ministro da Educação, Fernando Haddad, havia admitido na segunda-feira (8) que uma das falhas deve-se a um problema ocorrido dentro do Inep. O instituto diagramou as folhas de resposta exatamente como elas haviam sido usadas no Enem de 2009, quando a ordem das questões de ciências humanas e ciências da natureza estava invertida com relação à prova deste ano.
Como se não bastassem as falhas, a Polícia Federal da Bahia está apurando uma possível fraude no Enem. Segundo o delegado da PF de Juazeiro, Alexandre de Almeida Lucena, professores do cursinho Geo Petrolina teriam dito que alguns alunos os procuraram no sábado, após o primeiro dia de prova, perguntando sobre assuntos relacionados ao tema da redação do exame, seria cobrada no dia seguinte.
Indicado ao cargo no Inep pelo ex-ministro da Educação Cristovam Buarque, Helene atualmente é professor de física da USP (Universidade de São Paulo) e foi diretor da Adusp (sindicato dos professores da USP) entre 2007 e 2009. Ele pondera que a reaplicação do Enem para os estudantes que receberam o caderno com questões erradas exige uma nova prova com "grau de dificuldade totalmente equivalente à anterior".
- É um problema que não poderia ter acontecido. Se o Enem tem que continuar a ser feito, ele tem que contornar todos os problemas. Senão, não há vantagem de envolver 3,4 milhões de pessoas em um exame como esse.
Apesar disso, o ex-presidente do Inep evitou fazer críticas diretas ao Ministério da Educação sobre os problemas ocorridos no Enem.
- Não sei de quem foi a responsabilidade total, já que virou um caso judicial e as responsabilidades são cruzadas. Claro que fazer uma prova para mais de 3 milhões de pessoas em um país com uma infraestrutura precária é sempre complicado.
Helene acredita que o acesso ao ProUni (Programa Universidade Para Todos), que oferece bolsas para estudantes de baixa renda com bom desempenho no Enem, poderia ser realizado independentemente do exame nacional, “por uma avaliação da própria faculdade, por exemplo”.
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