Quatro homens invadem uma residência no Crato para prestar contas com um homem. Ele é baleado, mas consegue fugir. A sentença mais cruel foi dada à filha dele, uma menina de dois anos que, deitada no colchão, morre com um tiro na testa. O crime seria motivado por um assalto que o pai da criança teria praticado, conforme investigação policial. Cinco meses antes, fevereiro de 2010, outra criança morre, vítima da violência. Depois de ser violentada, com graves lesões no corpo, foi socorrida num hospital, mas não resistiu. O principal suspeito era seu padastro, o que revoltou a comunidade. Ele foi assassinado horas depois.
Neste ano de 2010, de janeiro a julho, 22 crianças (de até 12 anos) foram assassinadas no Ceará. Um crescimento de 120%, se for considerado o dado de 2008, quando 10 crianças foram vítimas de homicídio. E o ano ainda nem acabou. Em 2009, foam registrados 12 assassinatos de crianças. A estimativa é da Secretaria da Segurança Pública e Defesa Social (SSPDS). Por que as crianças têm sido vítimas da violência tão cedo?
A assessora comunitária do Centro de Defesa da Criança e do Adolescente do Ceará (Cedeca), Nara Carneiro, cita que, nos casos de violência urbana, que têm relação com o tráfico e consumo de drogas, acertos de contas, vários fatores contribuem para o aumento dos índices. Na opinião dela, não existe uma política para a infância, faltam campanhas de desarmamento, há aumento do crime organizado e aliciamento de jovens, cada vez mais cedo, como trabalhadores dessa rede. Tudo isso é somado à desigualdade social.
“A violência não tem crescido somente contra crianças e adolescentes. Ela tem crescido no sentido geral, por causa de todos esses fatores”, reforça. No caso da violência sexual, ela defende que existe uma cultura adultocêntrica muito forte, onde as crianças não têm vez, e o adulto homem usa a criança como objeto de obtenção do prazer. “Ele coloca seu desejo acima da criança e muitos desses casos seguem com a morte, uma tentativa de apagar vestígios e que, na verdade, acaba não apagando”, cita.
Agressão
A médica e coordenadora da Comissão de Maus Tratos Contra Crianças e Adolescentes do Instituto Doutor José Frota (IJF), Francielze Lavor, destaca que existem outros casos de violência que vitimam as crianças e não chegam a óbito. De janeiro a agosto de 2010, o IJF atendeu 163 crianças de 0 a 10 anos por agressão física, lesão por armas branca ou de fogo, ou violência doméstica.“Às vezes, a criança chega com traumatismo craniano grave, com várias fraturas. A mãe diz que caiu da rede. Mas quando a gente observa, na pele da criança, tem marcas de queimaduras de pontas de cigarro, de ferro de passar”, lamenta. Para ela, são marcas de um sofrimento que não é de hoje, que já vem se arrastando e muitas vezes vem sendo silenciado pelos vizinhos, que poderiam ter denunciado.
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