
O ladrão de infâncias
Não há perfil para o pedófilo e, aparentemente, não existe característica que possa diferenciá-lo. Poderia ser qualquer pessoa. Mas alguns deles deixam rastros. O Ciência & Saúde desvenda o que passa pela cabeça de quem possui o transtorno que teima em roubar infânciasNo cotidiano, eles não apresentam comportamento ou características diferentes da maioria das pessoas. Podem ser médicos, advogados, militares, desempregados, tios, vizinhos. Ricos ou pobres. Não existe um perfil único que caracterize os pedófilos. O que os diferencia é exatamente o desejo sexual por crianças e pré-adolescentes. Prazer que eles não conseguem sentir, na mesma intensidade, por um adulto. E, quando têm desejos por alguém que já passou da adolescência, não descrevem a experiência sexual como prazerosa.
A pedofilia é assinalada como um transtorno sexual, e não uma doença, pelo Manual Diagnóstico e Estatístico de Transtornos Mentais, definido pela Associação Americana de Psiquiatria. “Mais precisamente, como um transtorno de preferência sexual. E não há cura”, classifica o psiquiatra Alexandre Aquino, do Hospital de Saúde Mental de Messejana. O desarranjo mental, por si só, não é crime. No entanto, os desejos do pedófilo, constantemente, o fazem um criminoso: comete estupro, abuso sexual, atentado violento ao pudor.
“No geral, os pedófilos são homens e têm entre 22 e 45 anos, mas há mulheres também, mesmo que em minoria”, aponta Alexandre. Conforme o médico explica, o pedófilo age às escondidas. Procura sempre fazer um trabalho velado. “É difícil bater o olho e identificar”, descreve, acrescentando que nem sempre a observação detecta alguém com pedofilia. Uma pessoa que está sempre cercada de crianças, por exemplo, não é, necessariamente, um pedófilo.
No entanto, é preciso estar atento. Quando os pais menos imaginam, a criança já caiu na armadilha. E é justamente no momento da descoberta das ações delituosas que os pedófilos ganham os holofotes. Vistos apenas como criminosos, eles podem, sim, trazer o transtorno como uma angústia. “Ele (o pedófilo) diz que não tem como controlar, justifica assim. Sabemos que as pessoas podem comandar os atos, é possível controlar as ações”, pontua o psiquiatra e psicanalista Paulo Marchon.
E o tratamento?
A pergunta é: há um tratamento para a pedofilia? Os médicos reafirmam que não há uma cura, mas é possível à pessoa com o transtorno controlar os impulsos. “São poucos aqueles que procuram um tratamento para dominar o transtorno”, alega o psicanalista Marchon.Como não é uma doença, não há remédios para combatê-la. Existem, no entanto, soluções farmacológicas para minimizar alguns dos sintomas provocados por um possível remorso, como o pânico, a ansiedade e a depressão.
“A pedofilia é um transtorno que leva a práticas cruéis, mas que a pessoa faz gostando e acha que não consegue controlar. A gente costuma indicar uma terapia para acabar com os pensamentos do pedófilo”, conta Marchon. Conforme o médico, o tratamento propicia um autocontrole do comportamento. Apesar de sentir vontade, é possível desenvolver estratégia para controlar os impulsos.
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